Melhor não tê-los?

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Descobri num post da Lola uma reportagem de 6 páginas que saiu na New York Magazine que é, no mínimo, perturbadora. Com o título "All joy and no fun" ("Muita alegria e nenhuma diversão") ela traz o resultado de inúmeras pesquisas que provam que, ao contrário do que o senso comum prega, ter filhos não traz felicidade. Também não traz infelicidade, dizem eles. Segundo os resultados, não é que ter filhos traga necessariamente infelicidade. Só não aumenta a felicidade. Ou melhor: não é que ter filho, no singular, traga infelicidade. Porque se passar de um, segundo os resultados, aí sim a infelicidade é certa.




Isso não perturba nossas mentes treinadas para ter filhos?

O pior é que o artigo faz sentido. Ele diz que antigamente fazia sentido ter muitos filhos, já que eles ajudavam na lavoura ou nos negócios da família. Filhos serviam para gerar renda. Atualmente, essa história está bem diferente. No mundo competitivo de hoje, para que seus filhos cheguem a algum lugar, é necessário muito investimento dos pais com escola cara, aula disso, aula daquilo etc. Em vez de ajudar a gerar renda, os filhos a sugam. Com as demandas só aumentando (só inglês não basta mais, deve-se falar também espanhol; só a graduação não é mais suficiente, é necessário o mestrado, de preferência no exterior...) o gasto dos pais aumenta na mesma proporção. Junte isso com o ritmo e estilo de vida modernos (Correria! Trabalho! Trânsito! Violência!) e adicione uma pitada dos discursos que pregam que devemos nos doar totalmente aos filhos, fazer mais, dar mais, passar mais tempo com eles, etc etc junto com o pensamento cosumista que paira no ar hoje em dia, de que temos que ter mais, viajar mais, comprar mais, morar em casas maiores e o resultado, qual é? Pais estressados, culpados e injuriados. Com a vida, com o casamento e sim, com os filhos. E aí, mais culpa, porque afinal, ter filhos, como dizem, absolutamente tem que ser "padecer no paraíso".

A polêmica não para por aí. Para um psicólogo da revista, "Filhos são uma grande fonte de felicidade. O problema é que eles transformam todas as outras fontes de felicidade numa porcaria." Que tal? E aí, gente como eu que ainda não os tem, lê uma coisa dessas e se lembra das reclamações de quem já tem filho, de não ter mais tempo pra nada, de ter que abdicar das próprias diversões em prol do filho, de não ter mais tempo para o marido, e tome de etc.

Lola, em seu blog, pinça alguns estudos fascinantes que da reportagem. Um pediu que 909 donas de casa texanas elencassem suas atividades preferidas. “Cuidar dos filhos” ficou em 16º lugar... de um total de 19. Até limpar a casa veio antes. Ah??

E aí o artigo diz que em países como a Dinamarca, Suécia etc, onde o governo dá licen~ça maternidade de 1 ano e licença paternidade idem, e ainda cuida de necessidades que aqui temos que cuidar nós mesmos como creche, segurança, escolas e saúde, aí sim é mais possível extrair alguma felicidade dessa experiência. Se o único jeito de ter felicidade com filhos for num sistema desses, as mães brasileiras estão perdidas, não?
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Depois de ler a tal matéria bombástica, fiquei pasma. Num primeiro momento me perguntava como assim. Num segundo momento me perguntei se não era hora de rever meus conceitos. Até finalmente chegar à minha própria conclusão:
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Acho que uma reportagem dessas é muito boa no sentido de nos alertar para o que a decisão de ter filhos realmente significa. Para que esqueçamos as imagens que a mídia tenta nos fazer acreditar (a da família sempre feliz com seus filhos lindos usando roupas caras... E pensando bem, é claro que a mídia tem que pregar: tenha mais filhos! Afinal, quem os tem, gasta muito mais dinheiro, não é?) Para que fiquemos atentos a essa experiência, que é como qualquer outra na vida: imperfeita. E como todas as outras, pode ser fonte de alegria mas também de tristeza, de raiva, de frustração, de riso, de choro, de amor, de ódio, de tudo. Não é assim também com o casamento, o trabalho, a vida em família, a compra de um carro novo? Então porque não haveria de ser com filhos?
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No fim, se a gente for tentar eliminar da vida tudo que é fonte de agitação, angústia e infelicidade, precisaremos abdicar da própria vida. Que é o que os monges budistas fazem, por exemplo. Abdicam de todas as coisas mundanas com as quais lidamos e ficam a meditar. Encontram a paz interior e a felicidade completa.
Mas para quem ainda não chegou nesse nível de desapego, ter filhos deve ser uma escolha como todas as outras. E é bom entrar nessa sabendo de que a jornada terá seus momentos bonitos e feios. Pelo menos nos alivia de alguma culpa e deixa nossos olhos bem abertos.
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Comentários

  1. Polêmico esse assunto. Por muito tempo (quase minha vida toda), eu não quis ter filhos. Mudei, tenha e estou feliz com a escolha. No entanto, quando eu não queria ter, também estava feliz, embora todos franzissem testas e narizes quando eu dizia que não queria ser mãe.. a opinião alheia!!!!!
    Discordo apenas com o lance dos monges budistas. Será que de fato encontram a paz interior e felicidades plenas abdicando de tudo? Desconfio. Para mim, isso é apenas uma rota alternativa, assim como as outras pessoas encontram tantas outras.... mas isso é outro assunto neh?

    Abraço e adorei a postagem.

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  2. Oi, Hellen! Realmente o assunto é polêmico e dá muito pano para manga. E quanto aos budistas, acredito mesmo que quando e realmente a "vocação" da pessoa, que é mais fácil ficar em paz vivendo uma vida extremamente simples. Afinal, como eu disse no post, as coisas que nos trazem felicidade nessa vida (amor, família, trabalho, desafios, viagens etc) são fontes tanto de felicidade quanto de sofrimento... Mas é claro, se soubermos aproveitar os bons momentos e transformar os maus, aí vamos ter muito mais momentos bons do que ruins, com certeza...

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  3. Ah, esqueci de dizer: sobre o que você disse de que não queria ser mãe por um tempo e depois que resolveu está sendo muito feliz, acredito completmanete. Foi assim comigo a história de casar. Por muito tempo me perguntei se eu realmente gostaria de ser casada, e cheguei a considerar seriamente que não. Não é só porque todo mundo fazia isso que eu achava que também tinha que fazer. Mas aí... mudei de idéia e hoje estou muito feliz casada! Não acho que mudar de idéia seja errado. É sim muito autêntico! ;-)

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